Por Claudio Bandeira
Sete espécies de
peixes comuns no litoral baiano correm o risco de extinção devido ao excesso de
pesca, induzida pelo alto consumo. A constatação é de uma pesquisa
realizada no Parque do Recife de Fora, em Porto Seguro (BA), pela Universidade
Federal de Santa Catarina, que integra a rede de pesquisas do Projeto Coral
Vivo. A região foi escolhida por ser uma das mais ricas da costa brasileira
em biodiversidade marinha.
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| O peixe Mero é uma das espécies ameaçadas |
A pesquisa foi
publicada recentemente na revista Fisheries Management and Ecology,
um dos mais respeitados periódicos científicos especializado em gerenciamento
de pesca e ecologia.
O levantamento de
dados foi desenvolvido pelos biólogos Mariana Bender, Sergio Floeter e Natalia
Hanazaki da UFSC, e envolveu entrevistas com quatro gerações de pescadores
locais que atuam nas imediações do parque.
Entre as espécies
ameaçadas estão o badejo quadrado (Mycteroperca bonaci) e o cherne (Hyporthodus
nigritus) que foi incluido na lista vermelha global da International
Union for Conservation of Nature (IUCN).
"Além desses,
detectamos que estão em declínio capturas de mero-gato (Epinephelus
adscensionis), garoupa (Epinephelus morio), cioba (Lutjanus
analis), dentão (Lutjanus jocu) e guaiúba (Ocyurus chrysurus)",
enumera Mariana Bender>
Ela acrescenta que
as espécies vivem em áreas de recife e que as denominações são nomes populares
atribuídos aos peixes na região, mas que podem variar ao longo da costa
brasileira.
Foram entrevistados
53 pescadores de forma a ajustar os referenciais ambientais relativos ao
impacto provocado pela ação humana no ecossistema marinho.
Uma das perguntas
do estudo se referia ao maior peixe já capturado por cada um deles e
quando isso ocorreu.
"Os com idades
superiores a 50 anos tinham pescado animais de maior porte se comparados às
gerações mais jovens", explica a bióloga.
O badejo quadrado (Mycteroperca
bonaci), por exemplo, há quarenta anos era pescado com 49 quilos e,
atualmente, com 17 quilos.
Pesca predatória
A pesquisa da UFSC
constatou que 36% dos pescadores consideraram que a atividade contribuiu para o
declínio dos recursos pesqueiros. "Eles lembraram da época em que
pescavam nos recifes do atual parque marinho - que agora é uma área de proteção
integral - e retornavam com as canoas cheias de peixes", afirma a
bióloga.
Se de um lado os
pescadores mais velhos reconhecem o declínio de espécies de peixe e de que a pescaria
na região mudou consideravelmente nas últimas décadas, os mais jovens
desconhecem que os animais - hoje raros - já foram abundantes.
Ainda segundo a
bióloga, "as diferenças na percepção das quatro gerações de pescadores em
relação ao meio ambiente e à conservação de recursos pesqueiros é um fenômeno
conhecido como "referenciais dinâmicos" (em inglês, shifting baseline
syndrome). "Os badejos e garoupas, particularmente, são muito
apreciados na culinária pela sua carne. Por isso, é necessário promover o
consumo consciente para que os estoques dessas espécies possam se
recuperar", diz Bender.
O estudo contou com
o patrocinado pelo programa Petrobras Ambiental, e pelo Arraial d'Ajuda Eco
Parque.
Aquicultura
O assessor de
projetos institucionais da Bahia Pesca, Eduardo Rodrigues, reconhece que as
sete espécies pesquisadas estão de fato ameaçadas de extinção, sendo que o
mero, o badejo e a garoupa pertencem a mesma família.
Ele explica que a
redução de tamanho dos peixes ao longo dos anos se deve ao fato do esforço de
pesca impedir o ciclo biológico natural de crescimento do animal. E
defende que a aquicultura é a forma mais apropriada para recuperação dessas
espécies em via de extinção. A técnica implica na criação desses peixes em
tanques.
"Estamos
trabalhando com o mero, uma das espécies ameaçadas, mas é um atividade que
requer tempo".
Ele informa ainda
que as espécies apresentam período de defeso regulamentado por lei e que proíbe
a pesca.
Pesquisas vêm
relatando que retirar dos oceanos mais do que eles podem repor resulta em
desequilíbrio ecológico e danos à economia de subsistência.
"Alguns
pescadores com menos de 31 anos não reconheceram espécies de peixes como o
mero-gato e o cherne quando apresentados às fotos na entrevista",
relata Mariana Bender.
Estudo identifica
regiões de captura irresponsável
A pesca predatória ocorre em escala global e
está diretamente ligado ao consumo pela população humana, destaca a bióloga
Mariana Bender. Ela cita como exemplos os grandes atuns, tubarões, marlins,
e também, as espécies de peixes que utilizam os recifes como habitat.
Devido ao alto consumo, na década de 90 os
estoques de bacalhau começaram a dar sinais de declínio no mar do Norte. Cerca
de 40 mil trabalhadores perderam os postos de trabalho e até hoje muitos não
conseguira retornar ao mercado de trabalho.
Pesquisa da Universidade de Colúmbia Britânica, no
Canadá, enumerou os locais do planeta onde os “arrastões” da indústria
pesqueira põe em risco o ecossistemas marinhos.
O estudo identificou a costa nordeste do
Canadá, a costa mexicana no Oceano Pacífico, a costa peruana, o Pacífico Sul
(destacadamente a região ao redor da Nova Zelândia), a costa sudeste da África
e a região antártica.
Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores
reuniram dados econômicos a exemplo das taxas de crescimento da produção
de pescado de forma a elaborar um índice que permitisse comparar a ameaça para
os ecossistemas em cada país.
Pelo menos 12% das espécies de garoupas e badejos
estão em risco de extinção, segundo relatório de especialistas da União
Internacional para Conservação da Natureza (IUCN), organização que
elabora as “listas vermelhas” de espécies ameaçadas.

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