Da
BBC Brasil
Por Rafael Gomez
Cada vez mais raros
Um estudo realizado no sul da Bahia por pesquisadores da Universidade
Federal de Santa Catarina revelou que sete espécies de peixe anteriormente
comuns na região e usados na culinária local estão desaparecendo.
O levantamento, feito pelos biólogos Sergio Floeter, Natalia Hanazaki e
Mariana Bender, foi feito com base em entrevistas com pescadores que trabalham
na região vizinha ao Parque Municipal Marinho do Recife de Fora, em Porto
Seguro.
Um total de 53 pescadores de diferentes idades foram convidados pelos
pesquisadores a identificar, por meio de fotos, espécies de peixe que
tradicionalmente vivem na costa da região. Eles responderam a perguntas sobre
qual é o maior peixe de cada espécie que já haviam capturado e o ano que isso
ocorreu.
A conclusão foi que algumas espécies estão cada vez menos presentes nas
redes dos pescadores, ou, quando estão, os peixes são menores do que em décadas
passadas.
São elas o badejo-quadrado (Mycteroperca bonaci), a garoupa (Epinephelus
morio), o dentão (Lutjanus jocu), a cioba (Lutjanus analis),
a guaiúba (Ocyuru chrysurus), o cherne (Hyporthodus nigritus) e o
mero-gato (Epinephelus adscensionis).
Pesca não-sustentável
Durante a pesquisa, ficou claro que pescadores mais velhos, com mais de
50 anos, pescavam peixes maiores do que os mais jovens.
O badejo-quadrado, por exemplo, era encontrado há 40 anos pesando quase
50 quilos na região. Hoje, o mais comum é encontrá-lo com 17 quilos.
Mais preocupante foi a constatação de que alguns peixes sequer são
reconhecidos pelos pescadores mais jovens.
"Alguns pescadores com menos de 31 anos não reconheceram espécies
de peixe como o mero-gato e o cherne quando apresentados às fotos na
entrevista", disse Mariana Bender.
Situação das espécies
do estudo segundo a lista do IUCN
Badejo-quadrado – Quase ameaçada; população diminuindo
Garoupa – Quase ameaçada; população diminuindo
Dentão – Não aparece na lista
Cioba – Vulnerável
Guaiúba – Não aparece na lista
Cherne – Em perigo crítico
Mero-gato – Pouco preocupante; população diminuindo
Os mesmos pescadores jovens disseram não saber que peixes hoje raros
foram um dia abundantes no sul da Bahia.
A pesquisa constatou que os pescadores acreditam que sua atividade está
tendo um impacto sobre os estoques pesqueiros da região: para 36% deles, seu
trabalho colaborou para reduzir a quantidade de peixes ao longo dos anos.
Mas, para os cientistas, não é apenas a pesca não-sustentável, feita em
uma escala que não permite que os estoques de peixe se reponham naturalmente,
que está por trás do sumiço dessas espécies.
"Outro fator preocupante é a perda de habitats e de habitats bem
conservados para a manutenção dessas espécies de peixe, como a perda de
manguezais, que servem como berçários naturais, e o assoreamento das regiões
costeiras que abrigam os recifes", explicou Bender.
Consumo consciente
A pesquisa, divulgada neste ano na publicação científica Fisheries
Management and Ecology, sinaliza a necessidade de avaliar a inclusão de
outros peixes de ambientes recifais nas avaliações de espécies ameaçadas de
extinção.
Alguns peixes que habitam as águas do sul da Bahia já preocupavam
bastante os cientistas mesmo antes deste estudo ser feito.
Um deles é o mero (Epinephelus itajara), que hoje é considerado
"em perigo crítico" em uma lista da IUCN (União Internacional para a
Preservação da Natureza, na sigla em inglês) que avalia o risco de extinção das
espécies.
Mariana Bender diz que os pescadores reconheceram o mero nas fotos, mas
muitos "jamais pescaram" esse peixe, pese que exista "um
histórico de exploração desse peixe na costa brasileira, fazendo com que ele se
tornasse um peixe 'raro'".
O cherne, cujo declínio foi constatado no novo estudo, também aparece na
lista do IUCN como criticamente ameaçado, mas duas das espécies analisadas na
Bahia, o dentão e a guaiúba, sequer foram avaliadas pelo IUCN, e a situação de
outra, o mero-gato, é descrita como "pouco preocupante".
Outra necessidade levantada pelos autores do estudo é a de redobrar os esforços
no sentido de promover um consumo consciente do estoque pesqueiro.
"Os badejos e garoupas, particularmente, são muito apreciados na
culinária pela sua carne. Dessa forma, é necessário promover o consumo
consciente para que os estoques dessas espécies possam se recuperar",
disse Bender.